A trajetória de um alagoano ético, combativo, “feito de ferro e de flor”

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Freitas Neto: 20 anos de saudade

 

Filho caçula de Seu Vicente e de Dona Adélia, João Vicente Freitas Neto nasceu na capital alagoana, em 19 de dezembro de 1949 e faleceu aos 47 anos, após a queda do avião bimotor Antonov 24, da empresa Cubana de Aviación, no mar do Caribe, ocorrido na noite de sexta-feira, 11 de julho de 1997, minutos depois de decolar de Santiago de Cuba em direção à capital cubana, Havana. Além de Freitas, outras 44 pessoas faleceram no mesmo acidente. Entre elas, sua prima, Maria das Graças Freitas (Gracinha), namorada da adolescência, com quem casou, em 1977, na cidade de Mimoso (PE). Da união, nasceu Marcelino (1978) e Glória Adélia (1979), que ainda eram adolescentes à época do acidente que vitimou os pais.

Após vivenciar parte de sua infância e adolescência em Garanhuns (PE), onde iniciou seus estudos, Freitas teve o primeiro contato com a vida de jornalista, em 1964, no jornal estudantil A Semente. No ano seguinte, fez sua estreia no Jornal de Alagoas, conforme o próprio Freitas Neto relatou num artigo “O Jornal por Dentro”, publicado no livro “Jornal de Alagoas: 80 anos”, e nunca mais largou a profissão. Só no Jornal Estado de São Paulo, o “Estadão” “Estadão”, onde atuou como correspondente, foram 19 anos. Na imprensa local também passou por jornais que fizeram historia, a exemplo de “O Desafio”, no final da década de 70, tendo ido, inclusive cobrir a Copa da Argentina, em 1978. Na época do seu falecimento, era coordenador da sucursal da Gazeta de Alagoas, em Arapiraca e Maragogi.

Em 1979, Freitas Neto foi eleito presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Alagoas (1979-1982), mobilizando a categoria na luta contra a ditadura militar, contra todas as formas de censura e aliando-se ao movimento nacional em defesa da anistia ampla e irrestrita para presos e perseguidos políticos. Na sua gestão, articulou os jornalistas alagoanos para participação da histórica greve geral, em defesa da democratização do país. Também lutou para assegurar a implantação do curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Alagoas. Em 1983, percorreu as Redações dos jornais de todo o país como candidato à presidência da Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ),tendo como principal bandeira de luta pela Democratização da Comunicação.

Sempre acompanhado de perto pela esposa Gracinha, Freitas conquistou o mesmo respeito obtido no jornalismo, atuando na advocacia, na política, no movimento sindical local e nacional, e ainda nas atividades de cronista esportivo, radialista e juiz classista, entre outras que exerceu ao longo dos seus 47 anos de vida. Na advocacia, Freitas se destacou em diversas atuações, em especial como assistente de acusação, ao lado do então advogado (hoje, desembargador) Diógenes Tenório, no caso Tobias Granja, jornalista alagoano assassinado em 1982. O caso rendeu ameaças de morte aos dois advogados. Com a mesma coragem e determinação, Freitas defendeu a advocacia como integrante do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional de Alagoas. Quando do seu falecimento, exercia o mandato de juiz classista.

Ainda na década de 80, Freitas Neto filiou-se ao antigo MDB (atual PMDB), por cuja legenda elegeu-se vereador por Maceió – 1982/1988 – exercendo papel ativo na redemocratização do país. Com a legalização do Partido Comunista (PCB), no qual foi um ativo militante, migrou para ele, garantindo a representação comunista na Câmara Municipal de Maceió. Um mandato marcado pela constante articulação com os movimentos sociais. Mais tarde, ingressou no Partido Popular Socialista (PPS), por onde disputou mandatos proporcionais e majoritários e integrou o Diretório Nacional.

Amante de Cuba, e agindo como um espécie de “embaixador” da Ilha de Fidel Castro, em terras brasileiras, Freitas organizou inúmeros eventos e voos de solidariedade, numa época em que a Ilha sofria consequências do embargo econômico americano. Levava a Cuba, profissionais de diversas áreas e políticos dos mais variados partidos, além de doações para o povo cubano.

Na última viagem a Cuba (julho de 1997), poucas horas antes do trágico acidente, ele e sua esposa assistiram ao Festival de La Cultura del Caribe, conhecido como Fiesta del Fuego, do qual participaram, desta vez, orquestras de frevo de Pernambuco, o grupo baiano Olodum, o pianista Artur Moreira Lima, entre outros. O casal pretendia permanecer no país para assistir ao Festival Mundial da Juventude.

Vinte anos depois do falecimento em Cuba, o Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa) passa a abrigar todo o acervo de Freitas Neto, para que as novas e futuras gerações jamais se esqueçam desse alagoano, que desempenhou, com ética, dedicação e coragem todas as causas que abraçou ao longo de sua breve existência.

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